Há pessoas que passam a vida inteira a ouvir versões diferentes da mesma frase: “És distraído/a.”
Algumas tentam contrariar isto. Fazem listas. Compram agendas. Criam rotinas. Prometem que “amanhã vai ser diferente”.
Mas, por dentro, sentem como se a atenção fosse um rádio antigo: ora sintoniza, ora chia, ora muda sozinho de estação.
Quando se fala em PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção), muita gente imagina uma hiperatividade visível, alguém “elétrico”, inquieto, impulsivo. Só que a PHDA nem sempre vem com esse lado mais evidente. Em muitos adultos, a parte mais marcante é outra: a dificuldade persistente em manter foco, organizar tarefas, gerir tempo, lembrar detalhes e sustentar esforço mental… mesmo quando querem muito fazê-lo.
É aqui que entra a apresentação Predominantemente Desatenta, muitas vezes descrita no dia a dia como “défice de atenção sem hiperatividade”.
O que significa “défice de atenção sem hiperatividade”?
Significa que a pessoa tem um padrão consistente e significativo de sintomas de desatenção, mas não tem (ou não tem em número suficiente) sintomas de hiperatividade/impulsividade para cumprir critérios dessa dimensão.
Na PHDA Predominantemente Desatenta, em adultos, o diagnóstico envolve tipicamente pelo menos 5 sintomas de desatenção, presentes durante pelo menos 6 meses, com impacto real no seu funcionamento do dia a dia. Além disso, os sintomas devem ter começado na infância (antes dos 12 anos), manifestar-se em mais do que um contexto (por exemplo, trabalho e casa) e não ser melhor explicados por outra condição.
Um ponto importante: “sem hiperatividade” não significa “sem inquietação”. Em muitos adultos, a hiperatividade pode existir de forma mais interna e silenciosa – uma mente acelerada, sensação de “motor ligado” ou de “andar a mil”, tensão, impaciência – só que sem o comportamento exterior que associamos às crianças.
Sintomas Comuns: Como se manifesta no dia a dia?
O que distingue a PHDA Desatenta não é “ser distraído/a de vez em quando”. É uma dificuldade que tende a ser persistente e desproporcional, sobretudo quando a tarefa é repetitiva, longa, pouco estimulante ou exige planeamento.
Alguns exemplos muito frequentes:
- Distração fácil: qualquer ruído, notificação, pensamento ou detalhe pode “puxar” a atenção para fora.
- Dificuldade em manter foco: começa com energia e perde-se a meio (mesmo em tarefas importantes).
- Procrastinação com ansiedade: adia, sente culpa, entra em modo de urgência e faz “a correr” (ou não faz).
- Desorganização: a casa, o trabalho e a cabeça podem parecer “um sistema sem pastas”.
- Gestão do tempo instável: subestima o quanto uma tarefa demora, chega atrasado/a, esquece prazos.
- Esquecimentos: compromissos, objetos, recados, pagamentos, o que era “mesmo para fazer hoje”.
- Dificuldade em seguir instruções longas: perde-se nos passos, troca a ordem, falha detalhes.
- Fadiga mental rápida em tarefas que exigem atenção sustentada.
- Sensação de “potencial por cumprir”: como se houvesse talento, mas faltasse uma engrenagem invisível.
E há um fenómeno subtil mas muito real, que os especialistas mencionam: hiperfoco.
Muita gente com PHDA não tem “falta de atenção”, tem dificuldade em regular a atenção. Ou seja, pode passar horas absorvida num tema ou tarefa interessante e depois sentir-se incapaz de responder a um e-mail simples.
Impacto do défice de atenção na vida adulta
A PHDA na idade adulta não é só uma lista de sintomas, é a forma como esses sintomas impactam na autoestima, nas relações e na vida prática.
Pode afetar:
- Trabalho e estudos: produtividade irregular, stress crónico com prazos, sensação de estar sempre “a compensar”.
- Vida doméstica: contas, burocracias, planeamento e tarefas repetitivas tornam-se fontes de conflito e vergonha.
- Relações: falhas de atenção podem ser interpretadas como desinteresse (“não me ouves”, “não te importas”), quando, muitas vezes, o problema é outro.
- Autoconfiança: anos de esforço sem resultados consistentes podem criar uma crença interna de referência de “eu falho”.
- Saúde mental: ansiedade e depressão podem surgir como consequência (ou coexistir desde cedo).
Em Portugal, especialistas referem que menos de 20% dos adultos com PHDA são adequadamente diagnosticados e tratados, sobretudo por sobreposição de sintomas com outras perturbações, falta de literacia e preconceito associado ao tema.
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Porque é que o diagnóstico é frequentemente tardio?
O diagnóstico tardio é comum e, para muitas pessoas, é um misto de alívio e luto: “Afinal não era falta de vontade… mas porque é que ninguém viu isto antes?”
Algumas razões típicas:
- A PHDA desatenta passa despercebida
- Não há “hiperatividade visível”, nem comportamentos que chamem atenção na infância.
- Boas notas ≠ ausência de PHDA
- Muitas pessoas compensam com inteligência, perfeccionismo, esforço extremo ou apoio familiar.
- Máscara social e género
- Em especial em mulheres, a apresentação pode ser mais interna (ruminação, sobrecarga emocional, “funcionar por ansiedade”), o que atrasa suspeitas.
- Comorbilidades confundem
- Ansiedade, depressão, perturbações do sono, consumo de substâncias e stress crónico podem dominar o quadro.
- Estrutura externa “segura” a pessoa… até deixar de segurar
- A universidade, a parentalidade, um cargo com mais responsabilidade ou um período de burnout podem retirar a rede e expor a dificuldade.
* Este padrão está amplamente descrito em recomendações e consensos europeus sobre PHDA no adulto.
Como é feito o diagnóstico e tratamento?
Diagnóstico
O diagnóstico é clínico e deve ser feito por profissionais com experiência em PHDA, preferencialmente com formação específica para o efeito. Em geral inclui:
- Entrevista clínica detalhada (história desde a infância, impacto atual, padrões de funcionamento);
- Avaliação do funcionamento em diferentes áreas (trabalho, estudos, relações, organização diária);
- Triagem e/ou avaliação de comorbilidades;
- Sempre que possível: informação colateral (ex.: relatos familiares) e escalas e testes padronizados.
Recomendações como as do NICE reforçam a importância de um processo estruturado, centrado no impacto funcional e na diferenciação de outras causas.
Tratamento
O tratamento costuma ser mais eficaz quando é multimodal, podendo incluir:
- Psicoeducação (compreender o funcionamento da atenção e a autorregulação);
- Estratégias comportamentais e organizacionais (rotinas, sistemas externos, gestão do tempo);
- Psicoterapia (frequentemente TCC adaptada à PHDA; e, em alguns casos, trabalho emocional com autoestima, vergonha e padrões de relação);
- Coaching/treino de competências (planeamento, execução, priorização);
- Medicação, quando indicada e acompanhada por médico (ex.: estimulantes ou não estimulantes), sobretudo quando o impacto é elevado.
As orientações do NICE e consensos europeus descrevem esta abordagem integrada, ajustada à gravidade e às necessidades da pessoa.
Lê mais sobre o tratamento da PHDA em adulto.
Falta de atenção e concentração em adultos: causas possíveis além da PHDA
Nem toda a desatenção é PHDA. E aqui é importante ter uma postura cuidadosa e cética: a atenção é um “termómetro” sensível, mexe com tudo o que se passa no corpo e na mente.
Causas comuns (e muitas vezes tratáveis) incluem:
- Privação de sono / apneia do sono / sono irregular;
- Ansiedade (a mente está a “vigiar perigo”, não está disponível para focar);
- Depressão (lento processamento, fadiga, baixa iniciativa);
- Burnout e stress crónico;
- Trauma e hipervigilância;
- Uso de álcool/cannabis ou outras substâncias;
- Efeitos secundários de medicação;
- Alterações hormonais (ex.: perimenopausa);
- Condições médicas (ex.: anemia, disfunções tiroideias, défice de B12);
- Sobrecarga digital (fragmentação constante da atenção).
A diferença não está só no sintoma (“não consigo concentrar-me”), mas no padrão ao longo do tempo, na história desde cedo e no tipo de impacto.
Quando procurar ajuda? (e a quem recorrer)
Vale a pena procurar ajuda quando:
- A desatenção interfere com trabalho/estudos, relações ou rotina diária;
- Existe sofrimento emocional (culpa, vergonha, ansiedade, sensação de falhar constantemente);
- Há repetição de padrões (prazos, esquecimento, desorganização) apesar de haver esforço;
- A pessoa sente que vive sempre em modo “apagar fogos”;
- Existem sinais desde a infância/adolescência (mesmo que “camuflados”).
A quem recorrer:
- Psiquiatra com experiência em PHDA no adulto (diagnóstico e eventual medicação);
- Psicólogo/a com experiência em PHDA e, preferencialmente, formação específica (avaliação clínica, psicoterapia e estratégias);
- Avaliação neuropsicológica, quando útil para clarificar perfil cognitivo e diferenciar hipóteses.
É importante lembrar que procurar ajuda não é “querer um rótulo”. Muitas vezes é querer uma tradução, um mapa, para aquilo que tem sido vivido, muitas vezes em solidão.
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Autoras:

A Dra. Liliana Marques é psicóloga clínica e co-fundadora da Clínica de Psicologia O Teu Lugar. É também formadora e terapeuta EMDR.
Atua em áreas como: perturbações de humor (ansiedade, depressão), regulação emocional, perturbações da personalidade, trauma, luto e perda, relacionamento interpessoal, stress e burnout, desenvolvimento pessoal.

A Dra. Ana Fidalgo é psicóloga clínica e co-fundadora da Clínica de Psicologia O Teu Lugar. É também terapeuta EMDR, formadora e especialista em Sexologia, Terapia de Casal e Educação Afetivo-Sexual.
Atua em áreas como: Ansiedade, perda e crises existenciais (depressão, luto, vazio/falta de sentido), trauma, perturbações de personalidade, sexualidade e intimidade, relações, família e decisões de vida, entre outras.
Referências Bibliográficas
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