“Ter alta” é ter a certeza de um amor onde teremos sempre espaço para existir.

Jul 28, 2025Alta, Amor, Amor próprio, Psicologia, Psicoterapia, Saúde Mental, Terapia0 comments

Há qualquer coisa transformadora no processo de “dar alta” a um paciente. E, como em tudo aquilo que nos transforma, também há um lado agridoce de que pouco se fala. Se, por um lado, o objetivo da terapia é devolver autonomia, por outro, há uma relação profunda de amor que, agora, adquire um novo significado, e um terapeuta que passa a existir por dentro, a uma distância que só existe por fora.

Quando penso nisto, lembro-me sempre de uma paciente que, há alguns anos, resistia na mudança da periodicidade do processo terapêutico para quinzenal, depois de algum tempo de encontros semanais profundos e necessários. Quando a questionei qual era o medo por trás dessa hesitação, respondeu-me: “porque sinto que, ao fazê-lo, estou um passo mais perto de chegar ao fim”. Aquela frase nunca mais me saiu da cabeça, porque num mundo de relações efémeras e cada vez mais fugazes, é realmente difícil acreditar que esta relação é mesmo diferente. E o que significa chegar ao fim?

O fim de um processo terapêutico é sempre um recomeço, e esse recomeço também significa que o processo terapêutico não tem fim: ele acontece pela vida fora, entranhado naquilo que descobrimos que somos, e permanece por dentro. E por muito que seja assustador pensar que aquela pessoa já não vai estar ali todas as semanas, no colo e amparo, e no empurrão que encoraja, ela está. Só não está por fora; é preciso reencontra-la por dentro. Nos significados, nos limites, e no encontro daquilo que de mais profundo somos e sentimos. Porque é lá que continua a residir todo o processo, e é lá que o terapeuta continua a existir e a segredar-nos baixinho “vai que tu consegues”, “como é que isso te fez sentir?”, “e o que achas se…?”.

E, por tudo isto, “dar alta” significa apenas um encontro no outro lado do caminho: o que acontece cá dentro. Em todos os caminhos que escolhermos, é aí que o terapeuta vai continuar a estar: no lugar seguro da relação onde encontraremos sempre uma porta aberta, um colo disponível e um ouvido que escuta, que desconstrói e devolve o sentido.

A relação terapêutica serve para ressignificar o sentido da relação com o outro, e isso também passa por encorajar a voar, mesmo quando temos medo de abrir as asas. Há alguns dias, numa consulta com uma paciente que teve um processo psicoterapêutico transformador e do qual muito me orgulho, depois de quatro anos, foi o dia de devolver mais umas asas para voar, mesmo com medo, e isso foi o que me fez refletir nestas palavras. “Fico triste, porque sinto que isto significa que estou a fechar um ciclo”, disse-me ela. O que eu não lhe disse, e talvez nenhum paciente saiba, é que o coração do terapeuta também fica do tamanho de uma ervilha quando isto acontece. Mas, ao mesmo tempo, vem a certeza tremenda de que não é o fim de nada: é como se a vida começasse outra vez. Com o medo do mundo desconhecido, como um bebé que acaba de nascer, mas também a certeza de um amor e um lugar onde vamos ter sempre espaço para existir.

 

– Por Liliana Marques

 

Marca o início da tua jornada.

Notícias

Ultimos Artigos

Aviso de cookies do WordPress by Real Cookie Banner