Há qualquer coisa transformadora no processo de “dar alta” a um paciente. E, como em tudo aquilo que nos transforma, também há um lado agridoce de que pouco se fala. Se, por um lado, o objetivo da terapia é devolver autonomia, por outro, há uma relação profunda de amor que, agora, adquire um novo significado, e um terapeuta que passa a existir por dentro, a uma distância que só existe por fora.
Quando penso nisto, lembro-me sempre de uma paciente que, há alguns anos, resistia na mudança da periodicidade do processo terapêutico para quinzenal, depois de algum tempo de encontros semanais profundos e necessários. Quando a questionei qual era o medo por trás dessa hesitação, respondeu-me: “porque sinto que, ao fazê-lo, estou um passo mais perto de chegar ao fim”. Aquela frase nunca mais me saiu da cabeça, porque num mundo de relações efémeras e cada vez mais fugazes, é realmente difícil acreditar que esta relação é mesmo diferente. E o que significa chegar ao fim?
O fim de um processo terapêutico é sempre um recomeço, e esse recomeço também significa que o processo terapêutico não tem fim: ele acontece pela vida fora, entranhado naquilo que descobrimos que somos, e permanece por dentro. E por muito que seja assustador pensar que aquela pessoa já não vai estar ali todas as semanas, no colo e amparo, e no empurrão que encoraja, ela está. Só não está por fora; é preciso reencontra-la por dentro. Nos significados, nos limites, e no encontro daquilo que de mais profundo somos e sentimos. Porque é lá que continua a residir todo o processo, e é lá que o terapeuta continua a existir e a segredar-nos baixinho “vai que tu consegues”, “como é que isso te fez sentir?”, “e o que achas se…?”.
E, por tudo isto, “dar alta” significa apenas um encontro no outro lado do caminho: o que acontece cá dentro. Em todos os caminhos que escolhermos, é aí que o terapeuta vai continuar a estar: no lugar seguro da relação onde encontraremos sempre uma porta aberta, um colo disponível e um ouvido que escuta, que desconstrói e devolve o sentido.
A relação terapêutica serve para ressignificar o sentido da relação com o outro, e isso também passa por encorajar a voar, mesmo quando temos medo de abrir as asas. Há alguns dias, numa consulta com uma paciente que teve um processo psicoterapêutico transformador e do qual muito me orgulho, depois de quatro anos, foi o dia de devolver mais umas asas para voar, mesmo com medo, e isso foi o que me fez refletir nestas palavras. “Fico triste, porque sinto que isto significa que estou a fechar um ciclo”, disse-me ela. O que eu não lhe disse, e talvez nenhum paciente saiba, é que o coração do terapeuta também fica do tamanho de uma ervilha quando isto acontece. Mas, ao mesmo tempo, vem a certeza tremenda de que não é o fim de nada: é como se a vida começasse outra vez. Com o medo do mundo desconhecido, como um bebé que acaba de nascer, mas também a certeza de um amor e um lugar onde vamos ter sempre espaço para existir.
– Por Liliana Marques