Mudaram-se os tempos, mudaram-se os contextos, mudou-se a expectativa do que é ser uma família e quais os seus papeis, e naturalmente, mudaram também os pais e os filhos. Parece que cada vez é mais exigente ser pai/mãe comparativamente há uns anos. Os desafios da parentalidade parecem cada vez maiores, conjugar o ritmo de vida acelerado com as mil tarefas que temos para fazer, enquanto equilibramos as várias áreas da nossa vida e ao mesmo tempo somos bombardeados com excesso de informação – parece realmente impossível de praticar.
Vivemos num mundo de aparências e de perfecionismo, onde sobretudo as mães usam a máscara e o escudo de super-heroínas, onde está tudo bem, onde conseguem fazer tudo, “mas, dentro de quatro paredes…”, cada uma carrega internamente este fardo, esta pressão da perfeição “esperam de mim grandes coisas, jamais posso falhar, vou continuar a mostrar que consigo fazer tudo, e mais importante, que está tudo bem”.
No contexto de consulta, surgem cada vez mais pedidos de última linha: o par parental vem apenas quando já não sabe o que fazer, quando está sobrecarregado, quando já esgotou todos os seus recursos e nada resultou. Ou então vem somente um dos elementos que foi obrigado a parar porque o corpo e a mente não resistiram à exaustão.
Neste sentido, vamos dar a conhecer o conceito de burnout parental, características e sentimentos associados e formas de o evitar.
O que é o burnout parental?
O burnout parental (BP) resulta de um estado de intenso esgotamento relacionado com o papel parental, em que a pessoa se sente emocionalmente desligada dos filhos, já não é capaz de retirar prazer do papel parental e questiona a sua capacidade enquanto pai/mãe. Acontece quando os riscos são superiores aos recursos.
Sinais e sintomas do burnout parental
Alguns dos aspetos principais que caracterizam o burnout parental e ajudam a identificar são:
1) Sentimentos de exaustão emocional, sentimentos de sobrecarga e esgotamento;
2) Distanciamento emocional da criança, de maneira a aliviar a fonte de exaustão;
3) Sentimentos de saturação, que estão relacionados com a perda de prazer e de realização no papel parental;
4) Sentimento de contraste, que corresponde à comparação de como os pais se sentem agora e como se sentiam antes em relação ao papel parental.
Alguns sinais e sintomas associados ao burnout parental também passam por sentir-se cansada/o a toda a hora, saúde a declinar, esquecer-se constantemente de compromissos/marcações, sentir-se inútil/incapaz de realizar o papel parental, sentir que está sempre de mau humor e sentir desconforto em receber contacto físico.
A nível individual, estão associados sintomas depressivos, ideação suicida e comportamentos aditivos. A nível conjugal, por sua vez, existem conflitos com mais frequência e a nível parental há um aumento do risco de violência verbal, física e negligência parental.

Fatores de risco do burnout parental
Os fatores de risco são características ou comportamentos que aumentam a probabilidade de desenvolver uma determinada doença. No caso do burnout parental, os fatores de risco são: o perfecionismo, a sobrecarga nas tarefas domésticas, as práticas educativas desajustadas, a baixa inteligência emocional, a falta de apoio do parceiro/a e a falta de rede de apoio.
Os preditores mais fortes do burnout parental relacionam-se com:
1) Características dos pais – tais como perfecionismo; baixas competências na gestão das emoções e do stress; expectativas irrealistas sobre a parentalidade; dificuldade em delegar tarefas e em pedir ajuda; parentalidade em idade precoce;
2) Características dos filhos – por exemplo, crianças com menos de 5 anos de idade ou crianças com algum problema de saúde;
3) Práticas educativas – tais como práticas educativas inconsistentes, acompanhamento excessivo da educação dos filhos e dedicação exclusiva, negligenciando outras dimensões da vida;
4) Organização da vida familiar – ausência de rotinas; tempo disponível para atividades de lazer; exigência dos projetos profissionais de ambos os elementos do casal que se tentam conciliar com a maternidade/paternidade; horários sobrecarregados de atividades extracurriculares dos filhos;
5) Qualidade da relação co parental – isto é, o grau de apoio do outro pai/mãe no desempenho do papel conjunto enquanto pais;
6) Nível de apoio extrafamiliar – como a falta de apoio da família alargada ou amigos;
7) Problemas financeiros;
8) Exposição a demasiada informação sobre como exercer a sua parentalidade e sobre como educar os seus filhos;
9) Pressão para que os filhos sejam os melhores e para criar filhos bem-sucedidos;
É importante realçar que estes fatores podem potenciar o burnout no pai ou mãe, mas não são necessariamente causa de burnout. Por outras palavras, uma pessoa pode apresentar estas características ou sentir isto e não ter burnout parental; os diagnósticos não são lineares.
É importante estar atento e consciente destes fatores, sinais e sintomas, permitindo atuar na raiz do problema e impedindo que estes escalem para níveis mais exaustivos. O primeiro passo é saber quais são, o segundo é saber identificá-los e o terceiro é atuar.
Qual é a diferença entre o Burnout Parental e o Stress Parental?
O stress parental é algo que todos os pais experienciam no desempenho do seu papel parental. Este surge face a um conflito entre as exigências da vida quotidiana e os recursos e aptidões do indivíduo.
O que diferencia o burnout parental do stress parental comum é a permanência ao longo do tempo: enquanto o segundo é momentâneo, o burnout transforma-se em stress crónico e é avassalador.
Quando o stress parental se intensifica
À exaustão estão associados pensamentos e sentimentos de fracasso, “eu falhei como pai porque não consegui fazer o meu papel… aquele papel que é o propósito da vida, e que toda a gente, exceto eu, consegue fazer”. Este sentimento de falha está associado à derrota, parece que a batalha já acabou só porque se falhou, mas esta ideia é para ser desconstruída. Tal como em muitas áreas da vida, o falhar não significa o fim. O falhar na parentalidade significa que estamos a ser isso mesmo: pais. Os pais são humanos, errar é humano, e é fora da zona de conforto e nessas situações que crescemos e evoluímos. Pois não é porque falhaste uma vez como pai que a partir daí tens o rótulo de mau pai para sempre. Mais importante do que não falhar, é aprender e não voltar a cometer os mesmos erros, nem a entrar na mesma espiral que levou ao burnout.
O falhar, relacionado com a exaustão, significa também que, consciente ou inconscientemente, a pessoa se deixou chegar a esse ponto. Às vezes as pessoas sabem e dizem para si próprias “não posso continuar assim, tenho que parar, tenho que fazer algo”, mas só quando são atingidas com maior intensidade é que se dão conta que já lá estão dentro. Deixam arrastar o pedido de ajuda e o “eu” fica sobreposto por todas as tarefas do dia a dia.
A vergonha também é um sentimento muito associado ao burnout parental. Por exemplo, no pós-parto com um recém-nascido, a pessoa com exaustão pode sentir vergonha de não querer pegar ao colo o seu bebé. Sentir vergonha porque precisa de espaço do bebé, porque precisa de descansar do bebé e isto até é tratado como um assunto tabu, que muitas vezes é empurrado para dentro e a pessoa nem se permite sequer pensar nisso, quanto mais verbalizá-lo, porque é um escândalo, uma vergonha. Pois então… é suposto que ser pai/mãe seja a maior alegria da vida… como posso/é suposto eu estar farto do meu filho se ser pai é tão bom? Até parece mal sentir isto! Ainda mais, há tanta gente que não consegue/pode ter filhos e eu aqui a sentir isto como um ingrato. E a seguir vem a culpa.
Dados estatísticos sobre o burnout parental
Durante a pandemia de Covid-19 os casos de burnout parental dispararam em todo o mundo, bem como os estudos sobre este tema. Muita da estatística que existe sobre a prevalência e incidência do burnout parental são deste período (Bastiaanse et al., 2021).
Em 2021, num estudo que incluiu 42 países, a prevalência global era entre 5% a 10% (Roskam et al., 2021).
Em Portugal, entre 2018 e 2020, a incidência do burnout parental aumentou de 2% para 4.6%. Existe uma maior incidência nas mães, afetando cerca de 5% das mulheres (Aguiar et al., 2021).
Existem estudos que também indicam que o burnout parental está associado ao individualismo, verificando-se níveis mais elevados nos países mais individualistas (Europeus e da América do Norte), o que faz sentido, pois o apoio co parental e a rede de suporte são fatores de risco do burnout parental (Roskam et al., 2021).
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Tratamento do Burnout Parental
1) Fatores de proteção
Anteriormente verificámos quais os fatores de risco que potenciam o burnout e quais os sinais e sintomas a ter em conta. Associados a estes temos, do outro lado, os fatores de proteção. Uma boa conjugação para se manter saudável é evitar os fatores de risco e aumentar os fatores de proteção.
Exemplos de fatores de proteção do burnout parental são:
a autocompaixão (capacidade de tratar-se a si mesmo com a mesma gentileza, preocupação e apoio que teria com alguém querido);
reservar tempo para atividades de lazer;
práticas educativas positivas;
elevada inteligência emocional;
experiências de coparentalidade positivas;
presença de rede de apoio.
Estes recursos ajudam a diminuir significativamente o stress.
2) Autocuidado
Algumas estratégias para combater o burnout passam por praticar o autocuidado. O autocuidado envolve todas as atividades que, regularmente, escolhemos fazer e que ajudam a manter ou melhorar o nosso bem-estar e saúde psicológica (por exemplo, ter atividades que nos fazem sentir bem, relaxados e felizes, fazer uma alimentação saudável, manter atividade física regular e bons hábitos de sono). O autocuidado pode também passar por procurar ajuda profissional.
Na vida diária o autocuidado, é esquecido e desvalorizado, colocado no fundo da lista de prioridades, pois andamos a um ritmo acelerado. Só quando já estamos a chegar ao limite, ou no limite, é que por vezes nos lembramos que temos de abrandar ou fazer uma pausa, e muitas vezes apenas nos apercebemos quando essas pausas são forçadas.
Encontramos sempre desculpas: “tratar de mim hoje não me dá jeito, tenho roupa para passar, dar banho aos meninos, fazer o jantar, etc.” E com isto vamos sacrificando o tempo para cuidar de nós.
Reservar tempo para cuidarmos de nós não é sermos egoístas. Pelo contrário, é essencial para termos uma relação saudável connosco e com os outros, nomeadamente para sermos mais capazes de cuidar e ajudar os outros. Provavelmente já ouviste a típica frase “primeiro temos que estar bem para poder cuidar dos outros”, se tu não estás bem, se tu não cuidas de ti, não vais conseguir cuidar/ajudar/tomar conta dos outros, e isto serve para a parentalidade, mas também para as outras áreas.
O autocuidado não deve ser visto como uma recompensa, mas sim como um hábito. Não é porque já se arrumou a cozinha ou porque se limpou a casa toda que agora merecemos descansar e cuidar de nós. Não, merecemos cuidar de nós todos os dias e o motivo é porque a nossa casa (o nosso corpo) merece e precisa de ser cuidado todos os dias, não porque concretizou alguma tarefa.
3) Outras formas de apoio e tratamento (incluindo Psicoterapia)
Para além destas estratégias de autocuidado existem também as mudanças no ambiente familiar e a psicoterapia. Quando passamos para o outro lado (a procura de ajuda profissional) ficamos a conhecer os benefícios do acompanhamento especializado. Por vezes a pessoa até pode dominar todas as técnicas, mas efetivamente não estar a conseguir obter resultados, e com ajuda tudo fica mais fácil. Procurar um tratamento personalizado, com estratégias e intervenções adaptadas à nossa realidade faz toda a diferença.
Em que momento procurar ajuda psicológica?
A procura de ajuda psicológica não deve vir só na crise, nem só na cronicidade, mas também na prevenção. Ou seja, antecipando o papel parental, quando se identifica alguma sinal/sintoma, ou quando a pessoa já esgotou todos os seus recursos e o burnout compromete as áreas da vida e impede a satisfação.
Procurar ajuda psicológica antes de estar no limite, quando as áreas de vida estão afetadas e identificas algumas características principais do burnout, é fundamental. O tratamento pode passar por ter esse apoio psicológico, e eventualmente por uma avaliação médica e intervenção farmacológica.
Não existe a parentalidade perfeita, e o pai e a mãe às vezes também precisam de ajuda
O que as pessoas de fora podem fazer para ajudar?
Estar presentes, envolverem-se. Se conheces alguém que aches que esteja a passar por isto oferece o teu tempo, a tua disposição em ajudar. Faz os possíveis para que essa pessoa consiga fazer uma pausa, consiga reservar tempo só para si. Ajuda-a retirando-a do que lhe causa stress (vão beber um café, vão passear, vão praticar desporto) ou ajuda-a intervindo no stress (vai a casa dela e arruma-lhe a casa, leva-lhe comida já feita, toma conta do filho dela). O primeiro passo é estar efetivamente disponível para ajudar e o segundo é usar a criatividade de maneira a aliviar a sobrecarga que a pessoa sente.
Referências Bibliográficas
https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/ser_mae_pai_desafios_parentalidade.pdf
https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/checklist_stresse_parental.pdf
https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/checklist_comportamentos_autocuidado.pdf
Aguiar, J., Matias, M., Braz, A. C., César, F., Coimbra, S., Gaspar, M. F., & Fontaine, A. M. (2021). Parental Burnout and the COVID-19 pandemic: How Portuguese parents experienced lockdown measures. Family Relations, 1-12. Advance online publication. https://doi.org/10.1111/fare.12558
Bastiaansen, C. W. J., Verspeek, E. A. M., & van Bakel, H. J. A. (2021). Gender differences in the mitigating effect of co-parenting on parental burnout: The gender dimension applied to COVID-19 restrictions and parental burnout levels. Social Sciences, 10(4), [127]. https://doi.org/10.3390/socsci10040127
Matias, M., & Aguiar, J. (2021). Burnout parental: Do conceito à avaliação. In Reflexões em torno da COVID-19: Famílias, crianças e jovens em risco (atas de conferência internacional). https://hdl.handle.net/10216/140099
Mikolajczak, M., Brianda, M. E., Avalosse, H., & Roskam, I. (2018). Consequences of parental burnout: a preliminary investigation of escape and suicidal ideations, sleep disorders, addictions, marital conflicts, child abuse and neglect. Child Abuse and Neglect, 80, 134–145. https://doi.org/10.1016/j.chiabu.2018.03.025
Ribeiro, B. M. R. (2021). Burnout parental e perfecionismo – Qual a sua relação? Estudo exploratório (Dissertação de mestrado, Universidade da Madeira). http://hdl.handle.net/10400.13/3890
Roskam, I., Aguiar, J., Akgun, E. et al. (2021). Parental burnout around the globe: a 42-country study. Affective Science, 2, 58–79. https://doi.org/10.1007/s42761-020-00028-4
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Autora:

Psicóloga Clínica com especialização em Psicoterapia Sistémica e Familiar. Gosta de trabalhar com casais, famílias e indivíduos.
Atua em áreas como: desenvolvimento pessoal, autoestima e problemas relacionais; relações, família e decisões de vida (dificuldades interpessoais e relacionais, crise, conflito, divórcio, transições no ciclo de vida); sexualidade e intimidade (aconselhamento afetivo-sexual); dependências/adições; aconselhamento parental.


