Burnout em adolescentes e estudantes: sintomas, causas e o que pode realmente ajudar a prevenir

Out 7, 2026Saúde Mental, Bem-estar, Psicologia0 comments

Estudante exausto com livros e apontamentos, num contexto de burnout académico

Cansados Antes de Começar

“Aproveita, estes são os melhores anos da tua vida, ainda não tens as responsabilidades de um adulto!” – uma frase que se costuma dizer com a melhor das intenções a quem ainda anda na escola ou na faculdade e que nasce do tempo e experiência do/da emissor/a, que tem tanto de particular como de coletiva. No entanto, atualmente, parece ser uma frase cada vez mais desligada da realidade de quem a ouve. No consultório o burnout (um termo que nasceu para descrever o esgotamento de adultos exaustos ao fim de décadas de carreira) chega cada vez mais cedo.

Este facto deixa em geral a maior parte das pessoas surpresas ou indignadas. Não porque adolescentes e estudantes não possam sofrer de exaustão, mas porque a palavra “burnout” carrega consigo a ideia de um sistema que se esgotou depois de muito tempo a dar mais do que o que se tinha. E o que significa isso, quando quem se esgota, aparentemente, ainda “não teve tempo” de dar seja o que for?

O que é o burnout?

O termo nasceu nos anos 70 para descrever profissionais de ajuda – enfermeiros, professores, assistentes sociais – que davam tanto de si aos outros que ficavam, eles próprios, vazios no seu depósito emocional. A Organização Mundial de Saúde classifica-o, hoje, na sua Classificação Internacional de Doenças, como um fenómeno ocupacional resultante de stress crónico no local de trabalho que não foi gerido com sucesso; não como uma doença em si, mas como um estado que emerge de um contexto específico. Falar de “burnout académico” ou “burnout estudantil” implica, tecnicamente, uma extensão do conceito original, pois a escola e a universidade não são, oficialmente, “trabalho”. Mas quem lá passa os dias sabe que essa distinção, na prática, interessa pouco.

A investigadora Christina Maslach, que se dedicou ao estudo deste fenómeno, descreve-o em três dimensões que se aplicam com a mesma nitidez fora do contexto profissional: exaustão emocional, que é o cansaço que já não se resolve apenas a dormir; despersonalização, ou cinismo, que é a distância cada vez maior de tudo o que antes importava – as notas, os colegas, o próprio futuro passam a parecer, de repente, indiferentes; e uma sensação de ineficácia pessoal, que se reflete na convicção de que, por mais que se faça, nunca é suficiente.

Num adolescente ou num estudante universitário, muitas vezes isto aparece disfarçado: nas faltas às aulas que soam a preguiça, na irritabilidade que passa muitas vezes por má-educação, no “já não me importo com nada” que assusta mais os pais do que a/o própria/o. Aparece também no corpo: dores de cabeça e de estômago sem causa médica aparente, sono que não repara, apetite que desaparece ou dispara. Em adolescentes mais novos, isto surge muitas vezes através do corpo e do comportamento, mais do que através de palavras, porque ainda não têm o vocabulário, ou a permissão interna, para nomear o que sentem. Nos jovens adultos universitários, a exaustão tende a vir já acompanhada de uma certa lucidez sobre o que se passa, ainda que isso raramente baste para a resolver sozinho/a.

Porque é que a escola (hoje) pesa como um trabalho

Há razões estruturais, não apenas individuais, para este cansaço aparecer tão cedo. A adolescência de hoje tem, em muitos casos, uma agenda que se rivaliza com a de um adulto a tempo inteiro: aulas, explicações, atividades extracurriculares escolhidas a pensar no currículo, treinos, exames – tudo isto antes mesmo de se somar o tempo passado nas redes sociais que, longe de ser descanso, é muitas vezes mais uma forma de sobrecarga sensorial e de trabalho: gerir uma imagem, acompanhar conversas, não ficar de fora. A palavra “pausa” desapareceu de muitas agendas juvenis, substituída por mais uma atividade que “conta para o currículo”.

Há também uma perda mais subtil: quando tudo passa a servir um objetivo futuro – a média de acesso, o currículo, uma entrevista de emprego daqui a dez anos -, o presente deixa de ter valor próprio. Aprender deixa de ser interessante em si mesmo e passa a ser apenas um meio; um livro só vale a pena se “contar” para a nota; um passatempo só se justifica se “ficar bem” numa candidatura. Esta instrumentalização de tudo, incluindo do próprio tempo livre, é um dos caminhos mais diretos para o cinismo que Maslach descreve, porque é difícil manter entusiasmo por algo que se deixou de fazer por gostar, mas sim porque deve ser feito.

A isto soma-se uma pressão de resultado que começa cada vez mais cedo. Entrar numa boa universidade, ou num curso competitivo como medicina ou enfermagem, deixou de ser um objetivo entre outros e passou a ser, para muitas famílias, o critério que decide se os anos anteriores “valeram a pena”. Um adolescente sente isso mesmo quando ninguém lho diz diretamente – sente-o na forma como uma nota é recebida em casa, no silêncio que se segue a um resultado abaixo do esperado, na comparação implícita com um irmão, um primo, um colega. Cresce a acreditar, sem que ninguém o tenha ensinado de propósito, que o seu valor como pessoa e o seu valor como aluno são a mesma coisa, o que, mais tarde e também sem que essa fosse a intenção, pode evoluir para uma crença perigosa que se resume a algo como “o meu valor depende daquilo que eu faço mais do que daquilo que eu sou” e se estende a cada dimensão do seu autoconceito.

Depois há a comparação, hoje visível como nunca nas médias publicadas, nos rankings de acesso, nas redes sociais onde os colegas parecem sempre melhor sucedidos, mais organizados, mais seguros de si. Comparar-se deixou de exigir esforço; basta abrir o telemóvel. E fazê-lo constantemente com uma versão editada da vida dos outros é, para qualquer sistema nervoso, uma fonte permanente de stress, mais ainda para um sistema nervoso ainda em desenvolvimento, para uma identidade ainda em construção, sem os recursos de regulação emocional que só a idade adulta, com sorte e engenho, traz.

Assistimos a como este quadro se intensifica em particular em alguns cursos – o número de pesquisas na google repete Medicina e Enfermagem, mas sabemos que hoje em dia é o caso praticamente de todos – à pressão académica junta-se, mais cedo do que seria talvez saudável, o contacto direto com sofrimento humano, longas horas de estágio, e uma cultura, em muitas escolas, que ainda trata o cansaço como sinal de dedicação e o descanso como fraqueza. Uma cultura que, ironicamente, forma profissionais de saúde que mais tarde vão ter de ensinar aos seus próprios pacientes a importância de descansar.

Nos estudantes universitários em geral há outra camada: é frequentemente a primeira vez que se vive longe de casa, a gerir sozinho uma rotina, uma casa, um orçamento, ao mesmo tempo que se tentam cumprir exigências académicas que já não têm a estrutura protetora do horário escolar ou da orientação parental. À solidão desta transição, raramente falada abertamente, soma-se ao cansaço académico de uma forma que aos próprios estudantes lhes custa nomear. Confundem, muitas vezes, saudades de casa com fraqueza, e isolam-se ainda mais precisamente quando mais precisariam de pedir ajuda.

Estudante a estudar até tarde com sinais de cansaço e sobrecarga académica

A dificuldade de lhe dar um nome

Talvez um dos obstáculos mais silenciosos, além do cansaço em si, seja a dificuldade em reconhecê-lo como legítimo. Um adulto exausto pode, pelo menos, apontar para um cargo, um horário, um chefe. Um adolescente exausto ouve, com frequência, que ainda não tem do que se queixar, que isto são só estudos, que o verdadeiro cansaço só chega depois, na “vida a sério”. Esta desvalorização, feita quase sempre com boa intenção, tem um efeito perverso: ensina o jovem a desconfiar do que o próprio corpo lhe está a dizer, a rotular como preguiça ou fragilidade aquilo que é, na realidade, um sistema a pedir tréguas.

Nas consultas, ouvimos isto com uma regularidade que já deixou de causar surpresa: jovens de dezasseis, dezoito, vinte anos, que pedem desculpa antes de descreverem o que sentem: “sei que isto deve parecer uma parvoíce”, dizem, como se tivessem de justificar o direito a estarem exaustos antes de terem, sequer, começado a vida adulta.

Há ainda um segundo peso, que se soma ao primeiro: a necessidade de que o próprio cansaço seja aprovado antes de ser levado a sério. Muitos adolescentes só se permitem descansar depois de reunirem provas suficientes de que “mereceram” esse descanso – uma boa nota, um trabalho entregue, um sinal de quem lhes importa. O descanso deixa de ser um direito básico do corpo e passa a ser mais um prémio a conquistar, o que é, goste-se ou não, uma forma precoce e silenciosa de aprender a condicionar o próprio bem-estar à opinião alheia.

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Como prevenir

Prevenir o burnout em quem ainda está a crescer, ao contrário do que sugerem muitas listas rápidas, não passa apenas por gerir melhor o tempo ou aprender técnicas de relaxamento, ainda que isso possa ajudar, à margem. Passa, primeiro, por separar, com muito cuidado, o valor de uma pessoa do seu desempenho. Para um adolescente que precise de aprender a gerir o stress, dificilmente isso acontecerá quando só se sente amado se trouxer boas notas para casa. Nessas situações, muitas vezes, aprende que o amor tem condições, e vai continuar a persegui-lo através da exaustão muito depois de sair de casa.

Passa, também, por proteger, ativamente, o tempo que não produz nada visível – o tédio, o brincar sem objetivo, o estar com amigos sem que isso “conte” para currículo nenhum. Este tipo de tempo é, muitas vezes, onde o desenvolvimento acontece. Um calendário sem uma hora livre pode parecer sinal de uma criança com um futuro brilhante, mas é, com frequência, sinal de um sistema nervoso sem espaço para recuperar.

Ajuda, também, que os adultos à volta pratiquem aquilo que pedem. Um pai que nunca descansa, ou uma escola que elogia publicamente o aluno que “nunca falta, mesmo doente”, ensina mais através do exemplo do que qualquer conversa sobre a importância do equilíbrio. Crianças e adolescentes aprendem a gerir os seus próprios limites, sobretudo, a ver como os adultos geriram os deles.

Ajuda, ainda, tratar o sono como algo que não é negociável, e não como a primeira coisa a sacrificar quando o tempo não chega. Um adolescente ou um jovem adulto cronicamente privado de sono não está apenas cansado; está mesmo a processar pior aquilo que estuda, a regular pior as próprias emoções, e a interpretar como catastróficas situações que, descansado, talvez conseguisse relativizar com maior facilidade.

E passa, por fim, por autorizar, explicitamente, o desempenho imperfeito. Dizer a um filho, a um aluno, a um estagiário, que uma nota mais baixa não muda o que sentimos por ele, que descansar não é render-se, que pedir ajuda quando algo pesa demais não é fraqueza, é a competência mais importante que se pode ter num papel de cuidado. Isto ensina-se ao longo de muitas pequenas ocasiões em que se escolhe reagir com curiosidade em vez de desilusão, sobretudo quando se está perante um resultado que não era o esperado.

Aquilo que a terapia pode oferecer 

Não existe fórmula que devolva, de um dia para o outro, energia a quem está genuinamente esgotado. Mas existe um espaço, fora da família e fora da escola, onde um adolescente ou um jovem adulto pode dizer, sem consequências negativas, “já não aguento”, sem que isso seja imediatamente corrigido, minimizado, ou transformado em mais um objetivo a cumprir. Nalguns casos, sobretudo com adolescentes mais novos, este trabalho nem sequer acontece só com o jovem – envolve também quem está à sua volta, porque um sistema exausto raramente se resolve isoladamente do sistema familiar e escolar que o rodeia.

Se reconheces, neste texto, alguém que amas (um filho, um aluno, um irmão mais novo), talvez o gesto mais útil que possas oferecer seja perguntar (e depois esperar mesmo pela resposta e ouvi-la com a atenção que merece) como é que ele, ou ela, está a aguentar tudo isto. E, talvez, deixar cair de vez a ideia de que estes anos têm de ser, só por definição, os melhores. Às vezes bastam anos suficientemente bons, e com espaço de sobra para descansar e divertir-se entre um dia e o seguinte.

Autora:

Ana Fidalgo - Psicóloga e terapeuta EMDR
Dr.ª Ana Fidalgo
Psicóloga
N.º da Cédula: 20735

A Dra. Ana Fidalgo é psicóloga clínica e co-fundadora da Clínica de Psicologia O Teu Lugar. É também terapeuta EMDR, formadora e especialista em Sexologia, Terapia de Casal e Educação Afetivo-Sexual.

Atua em áreas como: Ansiedade, perda e crises existenciais (depressão, luto, vazio/falta de sentido), trauma, perturbações de personalidade,  sexualidade e intimidade, relações, família e decisões de vida, entre outras.

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