A separação com filhos pequenos: como prepará-los para o divórcio dos pais

Nov 5, 2026Parentalidade, Psicologia, Relacionamentos0 comments

Pais a conversar com a filha sobre a separação familiar

Vamos separar-nos. Como explicar aos nossos filhos?

Uma separação com filhos pequenos levanta quase sempre as mesmas perguntas: “Como é que lhes devemos contar?”, “O que devemos dizer?”, “Como podemos protegê-los?”. A boa notícia é que a investigação é consistente num ponto: a forma como os pais se separam pesa mais do que a separação em si.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses segue a mesma linha orientadora e resume: “mais importante do que o facto de os progenitores se separarem, é a forma como o fazem”. Neste artigo, explico de forma simples como preparar os vossos filhos para o divórcio, o que esperar e quando pedir ajuda.

Antes de começar, não quero deixar de vos relembrar que não há estratégias que sirvam a todos e que, sempre que o Amor pelos vossos filhos for a linha orientadora das vossas decisões… estarão, certamente, a partir do ponto certo para fazerem aquilo que é melhor para eles!

Como a separação dos pais afeta as crianças pequenas?

Começo por dizer aquilo que, tantas vezes, repito em consulta: nós, os adultos, na maioria das vezes, subestimamos a capacidade de apreensão das crianças. Elas percebem e sentem muito mais do que imaginamos, antes sequer de o dizermos, e sem que ainda sejam capazes de lhe “dar um nome” (é nesta “legenda” que o nosso papel é fundamental!). A Ordem dos Psicólogos Portugueses afirma que a maioria das crianças se adapta de forma saudável num período de um a dois anos, sem problemas psicológicos graves a longo prazo. Isto não quer dizer que não sofram: quer dizer que o sofrimento inicial tende a diminuir quando o ambiente à volta é estável, seguro e afetuoso.

O divórcio dos pais deve ser visto como um processo e não como um momento único. O que mais influencia o bem-estar das crianças é o ambiente familiar antes e depois da separação, sobretudo o nível de conflito entre os pais.

Nas crianças mais novas, o impacto pode ser mais visível. É frequente sentirem-se culpadas pela separação e mostrarem mais ansiedade de separação ou mais desobediência. Por outras palavras, é possível que sintam que, se os pais deixaram de gostar um do outro, talvez isso signifique que também tenham deixado de gostar delas. No limite, podem sentir que o facto de se separarem um do outro, talvez signifique que também se vão separar delas. E por isso é que é tão importante criar as condições necessárias para que a forma como se separam não lhes pese como se fosse sobre elas.

Quando contar aos filhos que os pais se vão separar?

Essencialmente, contem quando a decisão estiver tomada e antes de as mudanças acontecerem. A Academia Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência aconselha a não esconder a notícia nem deixá-la para o último momento possível.

Sempre que possível, sentem-se com os vossos filhos e contem os dois juntos. Isso mostra à criança que, apesar da separação, os pais continuam a decidir em conjunto o que lhe diz respeito, e que continuam ligados naquilo que é mais importante: ela.

Escolham um momento calmo, sem pressa, e evitem dias especiais como aniversários ou vésperas de festas, e não se esqueçam de garantir que, nos dias seguintes, ambos estarão disponíveis para responder a perguntas – as crianças podem (e devem) fazer muitas!

Mãe a conversar com a filha sobre a separação dos pais

Como explicar o divórcio a uma criança pequena?

Uma explicação curta, honesta e adaptada à idade funciona melhor do que uma conversa longa. Digam a verdade, sem rodeios, mas sem precisar de entrar em detalhes. Respondam ao que a criança pergunta, sem acrescentar pormenores de adultos.

O que dizer aos filhos quando os pais se separam?

Há algumas coisas que os vossos filhos podem precisar de ouvir, de forma clara, e as vezes que forem necessárias:

  1. A culpa não é tua. Esta é particularmente importante, uma vez que as crianças (sobretudo as mais pequenas) tendem a achar que foram elas que causaram a separação.
  2. Os pais continuam a gostar de ti e vão ser sempre os teus pais. Haverá mensagem mais apaziguadora do que esta?
  3. Não vais ter de escolher um lado. E é importante cumprir esta promessa: a criança nunca deve sentir que tem de escolher de qual dos dois gosta mais. 
  4. É normal sentires-te triste ou zangado. É importante reconhecer que é uma situação triste para todos, e que há espaço para essa zanga e tristeza ser expressa.
  5. Vamos falar sobre o que vai mudar e o que fica igual. Expliquem onde vai dormir, quando vê cada um dos pais, se precisa de mudar de escola, se as atividades vão passar a ser em dias diferentes. As crianças lidam tanto melhor com a mudança quanto ela for previsível, isto é, quando sabem exatamente o que vai acontecer.
  6. Quais são as tuas dúvidas? É fundamental que os vossos filhos sintam que há espaço para fazer perguntas, e que vocês estarão disponíveis para as esclarecer.

O que evitar

  • Falar mal do outro;
  • Falar à criança sobre os conflitos ou sobre os problemas do casal; 
  • Usar a criança como mensageira ou confidente dos vossos conflitos;
  • Pedir-lhe, direta ou indiretamente, que escolha um lado;
  • Procurar na criança um apoio emocional que não deveria ser ela a dar.

Como explicar a separação aos filhos consoante a idade?

A mensagem de fundo é a mesma em todas as idades; muda a forma de a transmitir. As sugestões abaixo são orientações gerais e cada criança deve ser vista no seu contexto.

Separação com filhos até aos 3 anos

Nesta idade, a criança pode ainda não compreender o que é uma separação, mas sente as mudanças de rotina e o estado emocional dos pais. Recordam-se de quando disse que as crianças percebem através daquilo que sentem, mesmo que ainda não sejam capazes de lhe dar um nome? É isto. Nestas idades, o mais importante é manter rotinas previsíveis (sono, refeições, objetos de conforto) e transições calmas entre as casas. Frases simples ajudam: “O pai vai morar noutra casa. Vais estar com ele no sábado.” ou “Agora vai ser a mãe que te vai buscar à tarde”.

Separação com filhos dos 3 aos 5 anos

É a idade em que a culpa aparece com mais facilidade, porque a criança compreende o mundo a partir de si mesma. Repitam muitas vezes que a separação não é culpa dela. Livros infantis, desenhos ou brincadeiras podem ajudar a criança a mostrar o que sente quando ainda não consegue usar palavras para o fazer. Um calendário visual com os dias em cada casa pode ser algo que dá previsibilidade e segurança.

Separação com filhos dos 6 aos 8 anos

A criança já compreende melhor o que é uma separação e pode fazer perguntas diretas, por exemplo se os pais vão voltar a viver juntos. Respondam com honestidade, com leveza e, sobretudo, sem criar falsas esperanças. Por vezes, algumas crianças podem mostrar dificuldades de adaptação na escola, que podem surgir na forma de tristeza ou de problemas de comportamento. Pode ser importante conversar com os professores responsáveis e, em caso de necessidade, haver um “trabalho em equipa” entre a escola e os pais.

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Como pode uma criança reagir ao divórcio dos pais?

O comportamento dos filhos de pais separados pode mudar nos primeiros meses: a tristeza, a irritabilidade e mudanças de comportamento são reações esperadas. Pode também haver indicadores de maior ansiedade quando se separam de um dos pais, sentimentos de culpa, maior tendência a desobediência, comportamentos de oposição ou birras. Na verdade, cada criança reage à sua maneira. Uma criança que não assistiu a conflitos entre os pais, ainda que isso seja um elemento protetor, pode sentir a separação de forma mais repentina.

Quais as possíveis consequências do divórcio para os filhos?

Voltamos à forma como se separam, mais do que à separação em si. O risco para as crianças está ligado sobretudo ao conflito entre os pais, e não tanto à separação. Uma meta-análise com mais de 24 mil famílias divorciadas mostrou que o conflito entre os pais se associa a mais dificuldades emocionais e de comportamento nos filhos, em parte porque afeta a forma como os pais cuidam deles.

Quando o conflito se prolonga depois da separação, o sofrimento de curto prazo pode tornar-se duradouro; por outro lado, quando o conflito baixa, a maioria das crianças recupera. Entre os fatores que agravam o risco estão: sentir-se “no meio” dos pais, o medo de ser abandonada e assumir papéis de adulto.

Como ajudar os filhos a adaptar-se à separação?

Parece mais simples do que é na prática; bem sei! Mas as crianças adaptam-se melhor quando os dois pais continuam presentes e cooperam, com o mínimo de conflito. Na prática:

  • Protejam-nos do conflito. Discutam assuntos do casal longe dos filhos e, acima de tudo, nunca através deles;
  • Mantenham rotinas semelhantes nas duas casas (o máximo que conseguirem): horários, regras básicas, escola;
  • Falem bem um do outro ou, pelo menos, não falem mal!
  • Estejam disponíveis para perguntas, mesmo semanas depois. As crianças voltam muitas vezes ao assunto.
  • Cuidem de vocês. A verdade é que pais com apoio têm mais disponibilidade para os filhos; procurem esse apoio noutros adultos, e nunca nos vossos filhos.
  • Envolvam a rede de apoio: avós, escola e amigos podem ser essenciais. Afinal, “é preciso uma aldeia para criar uma criança!”, e o mesmo serve para a separação.
Pais a confortar a filha durante uma fase de mudança familiar

Quando procurar apoio psicológico para a criança?

A regra segue a linha de orientação para qualquer pessoa: pedir ajuda quando as dificuldades interferem no dia a dia e/ou na funcionalidade da criança, ou quando não diminuem com o tempo e, eventualmente, ganham maior expressão em algum momento. 

Há alguns sinais de alerta que a Ordem dos Psicólogos Portugueses e a Academia Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência descrevem, tais como:

  • Agressividade ou oposição persistentes;
  • Isolamento, tristeza profunda ou sinais de ansiedade que não passam;
  • Alterações (quebras) no rendimento escolar;
  • Dificuldades que se mantêm ou agravam ao longo dos meses, em vez de irem diminuindo.

Uma consulta de psicologia infantil dá à criança um espaço seguro para falar do que sente, e ajuda os pais a perceber o que é esperado e o que merece atenção.

Como é que a nossa Clínica pode ajudar os pais?

N’O Teu Lugar temos uma equipa de psicólogos com formação e experiência, que podem ajudar os pais a preparar a forma de comunicar a separação aos filhos. Na nossa consulta de aconselhamento parental, trabalhamos com os pais:

  • Como e quando contar aos filhos;
  • Como organizar a coparentalidade e reduzir o conflito;
  • Como responder às reações das crianças em cada fase.

Uma separação muda a forma da família, mas não tem de mudar o lugar que cada filho ocupa no coração dos pais. Cada família encontra o seu caminho, e nós ajudamos a encontrar o vosso. Se precisarem de apoio nesta fase, n’O Teu Lugar estamos disponíveis para vos ajudar a dar este passo com mais tranquilidade.

Autora:

Liliana Marques - Psicóloga
Dr.ª Liliana Marques
Psicóloga
N.º da Cédula: 22932

A Dra. Liliana Marques é psicóloga clínica e co-fundadora da Clínica de Psicologia O Teu Lugar. É também formadora e terapeuta EMDR.

Atua em áreas como: perturbações de humor (ansiedade, depressão), regulação emocional, perturbações da personalidade, trauma, luto e perda, relacionamento interpessoal, stress e burnout, desenvolvimento pessoal.

Referências Bibliográficas

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