Ansiedade e insegurança no relacionamento: como lidar e fortalecer a relação

Set 4, 2026Relacionamentos, Ansiedade, Psicologia0 comments

Pessoa com ansiedade e insegurança no relacionamento

No encontro (ou desencontro) com o outro, por vezes, há silêncios que podem parecer demasiado longos. Mensagens sem resposta que parecem tornar-se em sinais de afastamento. Mudanças no tom de voz que provocam horas de análise e ruminação. Um programa feito sem nós que parece confirmar que já não somos tão importantes…

Quando sentimos ansiedade e insegurança no relacionamento, a distância entre o que aconteceu e aquilo que tememos que esteja a acontecer pode tornar-se muito pequena.

Podemos saber, racionalmente, que quem está do outro lado está apenas ocupado e, ainda assim, sentir o corpo em alerta. Podemos reconhecer que não existem provas de uma traição, mas continuar a procurar sinais de que esta existe. Podemos receber palavras de amor e, pouco tempo depois, precisar de as ouvir novamente.

Muitas vezes pode associar-se esta ansiedade a uma falta de maturidade emocional, a dependência excessiva ou incapacidade. Mas se formos além disso ela revela o quanto a relação importa e o medo de perder a segurança emocional que se encontra nela. Ainda assim, ela levanta uma responsabilidade importante: a de fazer a distinção entre a ansiedade que pode nascer dentro de nós, dentro da relação ou no encontro entre ambos.

Por vezes, uma história de amor atual ativa medos antigos de outras, de rejeição, abandono ou inadequação. Noutras situações, a insegurança é alimentada por comportamentos reais de ambiguidade, indisponibilidade emocional, mentiras, ameaças de separação ou quebras de confiança. E, frequentemente, as duas dimensões podem até coexistir.

“Como deixo, então de ser insegura/o?” – perguntamos. Na verdade, há uma pergunta mais útil:

“O que precisa de mudar em mim, entre nós e, talvez, na própria relação, para que a confiança possa crescer?”

É normal sentir ansiedade numa relação?

Sim, porque amar implica sempre aceitar uma forma particular de vulnerabilidade.

Não controlamos completamente os sentimentos, as escolhas ou a permanência da pessoa que amamos. Podemos cuidar da relação, comunicar, comprometer-nos e construir confiança. Mas não podemos obter uma garantia absoluta de que nunca seremos rejeitados, traídos ou deixados.

Além disso a ansiedade tende a surgir para muitos de nós:

  • No início de uma relação;
  • Depois de uma discussão;
  • Perante uma mudança na disponibilidade do parceiro;
  • Quando existe distância física;
  • Durante uma fase de maior stress;
  • Depois do nascimento de uma/um filha/o;
  • Perante alterações na intimidade sexual;
  • Quando a relação atravessa uma transição;
  • Depois de uma quebra de confiança;
  • Quando experiências anteriores de abandono são reativadas.

A segurança sentida numa relação específica pode oscilar, sobretudo em relações mais recentes e perante acontecimentos que ameaçam o laço/vínculo. A vinculação, ou seja, o sistema psicológico através do qual procuramos proximidade, proteção e conforto junto de pessoas significativas, sobretudo quando sentimos medo, sofrimento, ameaça ou vulnerabilidade, não deve, por isso, ser entendida apenas como uma característica fixa da pessoa. É também influenciada pelas experiências que acontecem dentro da relação.

A ansiedade torna-se problemática quando deixa de ser uma reação ocasional e começa a “organizar” a relação:

  • Quanto espaço podemos tolerar;
  • Com quem o parceiro pode estar;
  • Quantas vezes precisamos de contacto;
  • Que assuntos podem ser discutidos;
  • Como interpretamos qualquer mudança;
  • O que fazemos para evitar ser abandonados.

Nesse momento, a relação pode deixar de ser um lugar onde vivemos de forma segura e tornar-se num lugar que estamos permanentemente a vigiar.

Como se manifesta a ansiedade e insegurança no relacionamento?

A insegurança pode surgir nos pensamentos, no corpo, nas emoções e nos comportamentos.

Pensamentos frequentes

A pessoa pode pensar:

“Ele/ela está diferente. Deve estar a deixar de gostar de mim.”

“Se não respondeu, é porque está com outra pessoa.”

“Mais cedo ou mais tarde vai perceber que consegue alguém melhor.”

“Se eu mostrar aquilo de que preciso, vai achar-me demasiado exigente.”

“Tenho de perceber exatamente o que quis dizer.”

“Se a relação estivesse bem, eu não sentiria esta ansiedade.”

“Preciso de ter a certeza de que não me vai deixar.”

“Se quiser estar sozinha/o, é porque já não me ama.”

Estes pensamentos podem parecer tentativas de antecipar o perigo mas, na prática, fazem com que a pessoa viva repetidamente uma perda que ainda não aconteceu.

Reações emocionais e físicas

Podem surgir:

  • Medo;
  • Ciúme;
  • Tristeza;
  • Raiva;
  • Vergonha;
  • Sensação de vazio;
  • Aperto no peito;
  • Náuseas;
  • Dificuldade em dormir;
  • Agitação;
  • Perda de apetite;
  • Dificuldade em concentrar-se;
  • Urgência em contactar o parceiro.

A intensidade da reação nem sempre corresponde ao acontecimento atual. Uma pequena distância pode adquirir o significado emocional de tantas outras  distâncias anteriores.

Comportamentos comuns

A ansiedade na relação pode levar a:

  • Enviar várias mensagens seguidas;
  • Verificar se a pessoa está online;
  • Analisar tempos de resposta;
  • Procurar alterações nas redes sociais;
  • Fazer perguntas repetidas sobre os sentimentos do parceiro;
  • Pedir provas de amor;
  • Testar a relação;
  • Provocar ciúmes para avaliar a reação;
  • Ameaçar terminar antes de poder ser abandonado;
  • Esconder necessidades por medo de parecer exigente;
  • Aceitar situações desconfortáveis para evitar conflito;
  • Comparar-se constantemente com outras pessoas;
  • Verificar o telemóvel do parceiro;
  • Interpretar qualquer pedido de espaço como rejeição;
  • Afastar-se emocionalmente para ver se o outro se aproxima.

Estes comportamentos procuram aliviar a insegurança… Porém, o alívio costuma não ser muito duradouro.

Uma resposta carinhosa, uma explicação ou uma nova confirmação pode acalmar momentaneamente, mas, quando a segurança depende de garantias repetidas, a dúvida tende a regressar e exige uma prova adicional.

Pedir repetidamente confirmação de amor, valor ou estabilidade, mesmo depois de já ter recebido respostas, sinais ou provas pode estar associado à ansiedade de vinculação e tornar-se desgastante dentro da relação.

 

O que é o apego ansioso ou vinculação ansiosa?

A expressão mais utilizada em português europeu é vinculação ansiosa, embora “apego ansioso” seja muito pesquisado e usado em conteúdos online.

A vinculação ansiosa descreve uma tendência para:

  • Temer rejeição ou abandono;
  • Duvidar da disponibilidade do parceiro;
  • Procurar proximidade e confirmação intensamente;
  • Permanecer muito atento a sinais de afastamento;
  • Sentir dificuldade em recuperar depois de um conflito;
  • Interpretar ambiguidades de forma ameaçadora;
  • Depender da resposta do outro para recuperar segurança.

Não é um diagnóstico nem uma identidade definitiva.

Dizer “tenho uma vinculação ansiosa” pode ajudar a reconhecer padrões. Dizer “sou ansioso e nunca conseguirei ter uma relação segura” transforma uma tendência relacional numa sentença.

A investigação mostra que a segurança pode mudar ao longo da vida e dentro de uma relação. A forma como o/a parceiro/a responde, a qualidade do vínculo e as experiências repetidas de cuidado ou indisponibilidade podem contribuir para aumentar ou diminuir a ansiedade.

Também importa recordar que a vinculação acontece sempre entre duas pessoas.

Uma pessoa mais ansiosa pode sentir-se relativamente segura com um parceiro disponível e previsível, mas muito ativada com alguém que alterna proximidade e afastamento. Da mesma forma, uma pessoa mais evitante pode afastar-se ainda mais quando sente que o parceiro exige contacto constante.

Alguns estudos com casais sugerem que a combinação entre a ansiedade e o evitamento de ambos está relacionada com a confiança, a satisfação e o compromisso na relação. O padrão não pertence apenas a um dos parceiros, é construído e reforçado entre ambos.

Quais são as causas da insegurança no relacionamento?

Não existe uma causa única –  insegurança pode resultar de vários fatores que se acumulam e interagem.

Experiências anteriores de rejeição ou abandono

A pessoa pode ter aprendido que a proximidade é instável.

Isto pode acontecer através de:

  • Cuidadores imprevisíveis;
  • Separações significativas;
  • Rejeição emocional;
  • Críticas frequentes;
  • Perdas;
  • Relações anteriores instáveis;
  • Traições;
  • Abandonos inesperados;
  • Experiências em que as necessidades foram ridicularizadas ou ignoradas.

Estas experiências não determinam inevitavelmente as relações futuras. Podem, contudo, criar expectativas sobre aquilo que acontece quando dependemos emocionalmente de alguém.

A pessoa deixa de reagir apenas ao parceiro atual, reagindo também à memória emocional de outras relações.

Baixa autoestima e medo de não ser suficiente

Quando o valor pessoal depende fortemente da aprovação externa, qualquer mudança no parceiro pode ser vivida como avaliação.

A pessoa pode pensar:

“Se ele está menos disponível, é porque deixei de ser interessante.”

“Se ela se sente atraída por alguém, significa que eu não sou suficiente.”

“Tenho de ser indispensável para não ser abandonado.”

“Não posso mostrar falhas, porque será fácil substituir-me.”

Neste contexto, a relação torna-se responsável por confirmar repetidamente algo que a pessoa ainda não consegue sustentar internamente: que é digna de amor, mesmo sem ser perfeita.

Experiências anteriores de traição

Depois de uma traição, o sistema de alerta pode permanecer ativo.

A pessoa pode analisar pormenores, procurar inconsistências e sentir dificuldade em acreditar nas explicações do parceiro. Esta vigilância não é necessariamente irracional: existiu uma quebra real da confiança.

No entanto, a vigilância permanente também não consegue reconstruí-la. Pode apenas tentar impedir que a pessoa volte a ser surpreendida.

A recuperação exige mais do que pedir à pessoa traída que “confie”. Requer transparência, responsabilização, consistência e tempo. A questão deixa de ser apenas como controlar a ansiedade e passa a ser se existem condições relacionais para a confiança reaparecer.

Comportamentos atuais do parceiro

Nem toda a insegurança resulta de feridas antigas.

Pode ser uma resposta a:

  • Promessas repetidamente quebradas;
  • Mentiras;
  • Desaparecimentos sem explicação;
  • Comportamentos ambíguos;
  • Infidelidade;
  • Ameaças frequentes de separação;
  • Indisponibilidade emocional;
  • Invalidação;
  • Aproximação e afastamento imprevisíveis;
  • Recusa em definir a relação;
  • Ocultação de informação relevante;
  • Comparações humilhantes;
  • Desrespeito por acordos estabelecidos.

Uma relação não se torna segura apenas porque uma das pessoas aprende a regular melhor as emoções, também depende de sinais interpessoais de cuidado, aceitação, investimento e responsividade. 

Relações anteriores diferentes da atual

Uma pessoa pode ter-se sentido segura numa relação e ansiosa noutra.

Isso não invalida a sua história de vinculação, mas mostra que o contexto importa. Determinados parceiros, fases de vida ou dinâmicas podem ativar vulnerabilidades que estavam menos visíveis.

Incompatibilidades e necessidades não negociadas

Por vezes, a ansiedade nasce de uma diferença real entre aquilo de que cada pessoa precisa:

  • Frequência de contacto;
  • Autonomia;
  • Demonstrações de afeto;
  • Exclusividade;
  • Utilização das redes sociais;
  • Relação com antigos parceiros;
  • Abertura emocional;
  • Projetos futuros;
  • Vida sexual;
  • Prioridades profissionais.

Nenhuma destas preferências é automaticamente certa ou errada! Mas, quando não são conversadas, a diferença pode ser frequentemente interpretada como falta de amor.

Stress, ansiedade e outras dificuldades psicológicas

A insegurança relacional pode aumentar em períodos de:

  • Sobrecarga profissional;
  • Doença;
  • Luto;
  • Gravidez ou pós-parto;
  • Depressão;
  • Ansiedade generalizada;
  • Alterações de sono;
  • Mudanças familiares;
  • Dificuldades financeiras;
  • Perda de apoio social.

Quando os recursos emocionais estão reduzidos, a relação pode tornar-se o principal lugar onde a pessoa procura estabilidade.

A insegurança é minha ou vem da relação?

Esta pergunta não tem sempre uma resposta simples. Uma forma possível de refletir é observar o padrão.

A ansiedade poderá estar sobretudo ligada a vulnerabilidades pessoais quando:

  • Aparece em quase todas as relações;
  • Persiste mesmo com parceiros disponíveis e coerentes;
  • Necessita de garantias cada vez mais frequentes;
  • É ativada por acontecimentos muito pequenos;
  • Leva a interpretações catastróficas sem evidência;
  • Não diminui depois de conversas claras;
  • Está associada a uma sensação antiga de não ser suficiente;
  • O medo se mantém independentemente do comportamento do parceiro.

A insegurança poderá estar a responder sobretudo à relação quando:

  • Começou depois de mentiras ou quebras de confiança;
  • O parceiro alterna proximidade e afastamento;
  • Os acordos não são claros ou não são respeitados;
  • Existem ameaças de abandono durante conflitos;
  • A pessoa recebe mensagens contraditórias;
  • Há indisponibilidade emocional persistente;
  • Perguntas legítimas são sistematicamente desvalorizadas;
  • Existe manipulação, controlo ou ocultação.

Muitas vezes, ambas são verdadeiras.

Uma pessoa pode ter medo de abandono e estar com um parceiro inconsistente.

Pode ter tendência para interpretar distância como rejeição e, simultaneamente, viver numa relação onde o parceiro utiliza o afastamento como punição.

Pode precisar de trabalhar a regulação emocional sem que isso torne aceitável aquilo que a magoa.

Uma reflexão… 

Por vezes, rotular uma pessoa como “insegura” permite que o casal evite uma pergunta mais desconfortável:

A relação está organizada de uma forma que torna a segurança possível?

Noutras situações, concentrar toda a atenção nos erros do parceiro evita outra pergunta:

Mesmo quando recebo amor, consigo acreditar que ele pode permanecer?

O trabalho psicológico começa quando ambas as perguntas podem existir.

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Ciúmes: proteção da relação ou prisão?

O ciúme tende a surgir quando percebemos uma ameaça a uma relação importante. Pode incluir medo, raiva, tristeza, comparação e desejo de proteger o laço. A literatura relaciona o ciúme romântico, entre outros fatores, com ameaças percebidas à vinculação e com maior ansiedade relacional.

Sentir ciúme não é, por si só, abusivo, é humano.

A questão é o que fazemos com ele.

Podemos dizer, desta forma ou de outra:

“Quando aconteceu isto, senti-me inseguro e preciso de perceber contigo o que significa.”

Ou podemos (não é uma sugestão!):

  • Exigir acesso ao telemóvel;
  • Controlar amizades;
  • Proibir atividades;
  • Seguir localizações;
  • Interrogar;
  • Ameaçar;
  • Humilhar;
  • Restringir a roupa ou a vida social;
  • Tratar suspeitas como provas.

O ciúme explica uma emoção, mas não justifica controlo.

Também não deve ser usado como prova de amor. Uma relação não é mais valiosa porque alguém tem medo constante de a perder.

Como controlar os ciúmes excessivos?

Mais do que tentar suprimir o ciúme, importa compreender o seu percurso:

  1. O que aconteceu?
  2. O que interpretei?
  3. O que temo que isso revele?
  4. Que emoção surgiu?
  5. Que comportamento tive vontade de adotar?
  6. Esse comportamento protege a relação ou apenas reduz a minha ansiedade naquele momento?
  7. Existe algo concreto que precisa de ser conversado?

O objetivo não é convencer-se de que nenhuma traição é possível… É aprender a não transformar uma possibilidade numa certeza e uma emoção numa autorização para controlar o outro.

A armadilha da necessidade constante de validação

Todos precisamos de validação.

Precisamos de sentir que o parceiro nos escuta, compreende e considera importantes. A perceção de que o outro responde com compreensão, aceitação e cuidado é uma dimensão central da intimidade e da segurança relacional.

O problema não está em pedir segurança. Está em exigir que o outro elimine definitivamente uma dúvida que regressa de dentro.

Podes perguntar:

“Ainda gostas de mim?”

O outro responde que sim.

Durante algum tempo, há alívio. Depois surge outro sinal, outra dúvida ou outra comparação. A pergunta regressa.

A validação deixa de ser alimento para a relação e transforma-se num medicamento de efeito cada vez mais curto.

Isto pode criar um ciclo ou uma profecia autorealizável (acontece quando uma expectativa inicial influencia o comportamento de tal forma que ajuda a produzir o resultado esperado):

  1. Uma pessoa sente insegurança.
  2. Procura confirmação com urgência.
  3. O parceiro responde.
  4. A ansiedade diminui temporariamente.
  5. A dúvida regressa.
  6. A procura torna-se mais intensa.
  7. O parceiro sente-se cansado ou controlado.
  8. Afasta-se.
  9. O afastamento confirma o medo inicial.

O comportamento que procurava impedir a distância acaba por contribuir para ela.

No entanto, a solução não é o parceiro recusar toda a segurança em nome da autonomia. Isso pode aumentar ainda mais o alarme.

A tarefa é encontrar um equilíbrio entre corregulação e autorregulação:

  • Conseguir receber apoio sem depender exclusivamente dele;
  • Conseguir oferecer tranquilização sem assumir responsabilidade por toda a ansiedade do outro;
  • Construir previsibilidade sem prometer certezas impossíveis.

Quando um persegue e o outro se afasta

Muitos casais entram num ciclo em que uma pessoa procura mais proximidade quanto mais insegura se sente, enquanto a outra procura mais distância quanto mais pressionada se sente.

Uma pergunta que se interrogatório, um pedido de espaço que se transforma em sentimento de abandono, uma tentativa de aproximação que é vivida como exigência, uma tentativa de acalmar o conflito que é experienciada como indiferença.

Quanto mais um persegue, mais o outro se afasta. Quanto mais o outro se afasta, mais o primeiro persegue.

Nenhum dos dois sente que iniciou o problema. Cada um sente que está apenas a reagir.

Uma perspetiva construtiva e que tem em conta o sistema organizado pelo casal não pergunta apenas quem está errado. Pergunta:

Que ciclo estamos a criar juntos, apesar de nenhum de nós o desejar?

Isto não significa dividir igualmente a responsabilidade em todas as situações. Existem comportamentos, como violência, coerção, humilhação ou traição, cuja responsabilidade pertence a quem os pratica.

Significa apenas que, em muitos conflitos não abusivos, o padrão entre ambos é mais esclarecedor do que uma procura interminável pelo culpado original.

Como lidar com a ansiedade e insegurança no relacionamento?

1. Nomeia o medo antes de reagires a ele

Antes de enviar uma mensagem, fazer uma acusação ou procurar provas, tenta completar:

“Neste momento, tenho medo de…”

Talvez a resposta seja:

  • Ser substituída/o;
  • Deixar de ser importante;
  • Estar a ser enganado;
  • Precisar mais do outro do que ele precisa de mim;
  • Parecer frágil;
  • Repetir uma relação anterior;
  • Descobrir que a relação não é aquilo que desejava.

Quando o medo não é nomeado, tende a aparecer disfarçado de crítica, controlo ou raiva.

“Porque é que nunca respondes?” pode significar:

“Quando não sei de ti, tenho medo de ter deixado de importar.”

Expressar vulnerabilidade não garante que a conversa corra bem. Mas oferece ao parceiro/a uma experiência emocional à qual é possível responder, em vez de uma acusação da qual terá de se defender.

2. Separa factos, interpretações e previsões

Experimenta organizar a situação:

Facto: O parceiro ainda não respondeu há três horas.

Interpretação: Está a ignorar-me.

Previsão: Está a perder o interesse e vai terminar a relação.

As três frases podem parecer igualmente verdadeiras quando a ansiedade está elevada. Mas apenas a primeira descreve aquilo que sabes.

Esta distinção não pretende invalidar a intuição, mas sim criar espaço para que a interpretação seja examinada antes de determinar o comportamento.

3. Regula a urgência antes de procurar uma resposta

Uma conversa iniciada no pico do medo tende a procurar alívio e não compreensão.

Antes de contactar a/o parceira/o, pode ajudar:

  • Respirar mais lentamente;
  • Caminhar;
  • Escrever aquilo que receias;
  • Esperar alguns minutos;
  • Falar com alguém de confiança;
  • Observar as sensações físicas;
  • Lembrar-te de outras explicações possíveis;
  • Perguntar o que realmente precisas de comunicar.

Regular-se primeiro não significa que o assunto deixa de ser importante. Significa aumentar a probabilidade de o abordar de forma que possa ser escutada.

4. Pede diretamente, em vez de testar

Os testes relacionais aparecem quando pedir parece demasiado vulnerável.

A pessoa pode:

  • Afastar-se para ver se o outro procura;
  • Dizer que quer terminar para ouvir que é amada;
  • Mencionar outra pessoa para provocar ciúme;
  • Não responder para avaliar a reação;
  • Fingir indiferença;
  • Criar um conflito para confirmar que o parceiro permanece.

O teste procura uma prova de amor, mas coloca a outra pessoa num exame que desconhece.

Em vez disso, experimenta formular um pedido:

“Quando passamos o dia sem contacto, sinto-me mais insegura/o. Podemos combinar uma forma de comunicarmos que seja confortável para ambos?”

Um pedido pode ser recusado ou negociado. Ainda assim, permite descobrir se existe disponibilidade real para construir a relação.

5. Reduz gradualmente a procura repetida de garantias

Não é necessário deixar de pedir apoio de um momento para o outro.

Experimenta observar:

  • Já fiz esta pergunta hoje?
  • Recebi uma resposta clara?
  • Estou à procura de informação nova ou de alívio?
  • Quanto tempo dura o alívio?
  • Consigo tolerar esta dúvida durante mais dez minutos?
  • Que segurança posso oferecer a mim própria/o neste momento?

A meta não é tornar-se autossuficiente e nunca precisar do parceiro. É permitir que o apoio do outro seja uma relação, e não um ritual obrigatório para neutralizar ansiedade.

6. Nutre uma vida que não dependa inteiramente da relação

A insegurança aumenta quando toda a identidade, apoio e sentido de valor ficam concentrados no casal.

É importante preservar:

  • Amizades;
  • Interesses;
  • Trabalho ou projetos;
  • Descanso;
  • Autonomia financeira possível;
  • Tempo individual;
  • Relação com o próprio corpo;
  • Decisões que não dependam sempre da aprovação do parceiro.

Isto não serve para parecer menos interessado nem para criar distância artificial…serve sim para que amar alguém não exija desaparecer dentro da relação.

7. Conversa sobre acordos concretos

Muitos conflitos atribuídos a “insegurança” resultam de expectativas nunca negociadas.

Pode ser necessário conversar sobre:

  • O que significa fidelidade;
  • Que contactos com antigos parceiros são confortáveis;
  • Como utilizar redes sociais;
  • Que nível de privacidade cada um espera;
  • Com que frequência gostam de comunicar;
  • Como avisar quando estão indisponíveis;
  • O que acontece quando precisam de espaço;
  • Que comportamentos representam uma quebra de confiança;
  • Como reparar depois de um conflito.

A confiança não cresce apenas através de sentimentos. Cresce também através de acordos claros e comportamentos repetidos.

8. Aprende a tolerar aquilo que nenhuma relação pode garantir

Nenhuma relação oferece certeza absoluta.

Não podemos saber que nunca vai terminar. Podemos apenas observar se o parceiro/a nos escolhe, se cuida do vínculo e se existe coerência suficiente para arriscar confiar.

Tentar eliminar toda a incerteza produz frequentemente mais vigilância.

E a confiança não é saber que nada correrá mal, é acreditar que poderemos reconhecer a realidade e cuidar de nós se alguma coisa correr mal.

Como deixar de ser insegura ou inseguro no relacionamento?

Talvez esta não seja a pergunta mais justa.

“Deixar de ser inseguro/a” sugere que existe uma versão ideal de nós que nunca teme perder, nunca sente ciúme e nunca precisa de confirmação.

Mas a intimidade torna-nos vulneráveis. O objetivo não é tornar-nos impermeáveis.

Talvez seja mais útil perguntar:

  • Como posso reconhecer a insegurança sem ser governado/a por ela?
  • Como posso pedir proximidade sem controlar?
  • Como posso tolerar espaço sem o interpretar imediatamente como abandono?
  • Como posso receber amor sem exigir provas intermináveis?
  • Como posso confiar no outro sem deixar de confiar em mim?
  • Como posso perceber quando o medo pertence ao passado e quando está a responder ao presente?

Construir segurança não passa por ausência de medos, passa pela capacidade de continuar a pensar, comunicar e conversar com o medo.

O que o/a parceiro/a pode fazer?

A insegurança não deve tornar-se responsabilidade exclusiva da/ do parceira/o. Mas a resposta dele/dela pode ajudar a acalmar ou intensificar o ciclo.

Pode ser útil:

  • Responder com clareza;
  • Cumprir acordos;
  • Evitar ameaças de separação durante discussões;
  • Comunicar períodos de indisponibilidade;
  • Reconhecer a emoção antes de discutir a interpretação;
  • Demonstrar afeto e gratidão;
  • Manter coerência entre palavras e comportamentos;
  • Perguntar o que ajudaria;
  • Estabelecer limites sem humilhar;
  • Não usar vulnerabilidades partilhadas como armas..

A/O parceiro/a também pode dizer:

“Compreendo que estejas com medo e quero falar contigo. Mas não vou entregar o meu telemóvel nem responder à mesma acusação durante toda a noite.”

Validar a emoção não exige aceitar todos os comportamentos originados por ela.

Casal em conversa séria durante um momento de ansiedade no relacionamento

Quando a ansiedade não deve ser normalizada

Há situações em que falar de vinculação, comunicação ou insegurança pode desviar a atenção do problema principal.

Se existe:

  • Violência física;
  • Coerção sexual;
  • Vigilância;
  • Controlo financeiro;
  • Isolamento;
  • Ameaças;
  • Humilhação;
  • Intimidação;
  • Perseguição;
  • Invasão repetida da privacidade;
  • Medo de estabelecer limites;
  • Retaliação quando a pessoa procura autonomia;

…não estamos apenas perante “ansiedade na relação”.

A prioridade deve ser reconhecer os comportamentos, avaliar a segurança e procurar apoio adequado.

Da mesma forma, a existência de ansiedade ou ciúme não justifica controlar, ameaçar ou agredir o parceiro. O sofrimento psicológico ajuda a compreender um comportamento, mas não elimina a responsabilidade por ele.

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Como pode a psicoterapia ajudar?

A psicoterapia individual pode ajudar a compreender:

  • De onde vem o medo de abandono;
  • Porque a distância é vivida como rejeição;
  • Como experiências anteriores influenciam a relação atual;
  • Que crenças existem sobre valor pessoal e amor;
  • Como reduzir a procura compulsiva de validação;
  • Como regular emoções sem as negar;
  • Como comunicar necessidades;
  • Como estabelecer limites;
  • Como distinguir intuição, ansiedade e sinais concretos;
  • Como construir uma identidade que não dependa exclusivamente do casal.

O objetivo aqui não é ensinar a pessoa a não precisar de ninguém – é ajudá-la a relacionar-se com a própria necessidade de vínculo de forma mais consciente.

Também pode ser importante trabalhar a escolha relacional. Algumas pessoas concentram-se em aprender a tolerar a indisponibilidade de parceiros que, repetidamente, não conseguem oferecer aquilo de que necessitam.

A psicoterapia não serve apenas para suportarmos melhor qualquer relação. Pode ajudar-nos a perceber que relações conseguimos construir e quais nos pedem que abandonemos demasiado de nós.

Se tiveres interesse, podes consultar os nossos psicólogos especialistas em ansiedade.

Quando procurar ajuda psicológica?

Pode fazer sentido procurar acompanhamento quando:

  • Pensas constantemente na possibilidade de ser abandonada/o;
  • Precisas de confirmação repetida;
  • O ciúme está a provocar conflitos;
  • Verificas mensagens, redes sociais ou localizações;
  • Tens dificuldade em estar sozinho;
  • Perdes o sono quando o parceiro está distante;
  • Ameaças terminar para obter segurança;
  • Aceitas situações que te fazem mal por medo de perder a relação;
  • Sentes que deixaste de ter uma vida própria;
  • Repetes o mesmo padrão em diferentes relações;
  • Uma traição anterior continua a dominar a relação atual;
  • Não consegues distinguir receios pessoais de sinais reais;
  • A ansiedade está associada a ataques de pânico, depressão ou sintomas físicos intensos;
  • Sabes o que deverias fazer, mas não consegues alterar o ciclo.

Não é necessário esperar que a relação esteja perto do fim. Procurar ajuda numa fase exploratória pode permitir compreender o padrão antes de ele se tornar mais rígido.

Quando faz sentido a terapia de casal?

A terapia de casal pode ser útil quando a insegurança já não pertence apenas à experiência de uma pessoa, mas ao ciclo entre ambos.

Pode fazer sentido quando:

  • Um procura proximidade e o outro se afasta;
  • As mesmas discussões se repetem;
  • Existem dificuldades em reparar depois dos conflitos;
  • Aconteceu uma traição;
  • A confiança foi quebrada;
  • Existem diferenças importantes sobre limites;
  • Um parceiro se sente controlado e o outro abandonado;
  • Ambos querem melhorar a relação, mas não sabem como;
  • As tentativas de tranquilizar já não funcionam;
  • Existem dificuldades em expressar vulnerabilidade;
  • A relação atravessa uma transição significativa.

Na terapia, o objetivo não é decidir qual dos dois é “o ansioso” ou “o problema”.

Procura-se compreender:

  • O que ativa cada pessoa;
  • Como cada uma tenta proteger-se;
  • Que significado atribui ao comportamento da outra;
  • Como o ciclo se mantém;
  • Que necessidades não estão a ser expressas diretamente;
  • Que mudanças cada parceiro pode realizar;
  • Se existe disponibilidade para reconstruir segurança.

A terapia de casal não deve ser utilizada para tornar aceitáveis comportamentos abusivos nem para pressionar alguém a permanecer numa relação. Quando existe violência ou controlo coercivo, a adequação e segurança deste formato precisam de ser avaliadas cuidadosamente.

Casal numa sessão de terapia para trabalhar dificuldades no relacionamento

Não precisas de escolher entre amar o outro e não te abandonares.

A ansiedade relacional cria frequentemente uma falsa escolha:

Ou confias totalmente e deixas de questionar ou proteges-te e permaneces vigilante.

Ou aceitas a distância ou exiges proximidade.

Ou cuidas da relação ou cuidas de ti.

Mas uma relação segura não exige que uma pessoa desapareça para que a outra permaneça.

A confiança constrói-se quando conseguimos dizer:

“Preciso de ti, mas não preciso de me perder para que fiques.”

“Tenho medo, mas não vou transformar esse medo numa acusação.”

“Quero acreditar em ti, mas também preciso de observar se as tuas ações são coerentes.”

“Posso oferecer-te segurança, mas não posso prometer que nunca sentirás insegurança.”

“Podemos ser importantes um para o outro sem sermos responsáveis por preencher todos os vazios um do outro.”

Talvez fortalecer uma relação não signifique eliminar todas as dúvidas.

Talvez signifique criar um vínculo onde as dúvidas podem ser faladas sem se transformarem em controlo, onde o espaço não equivale a abandono e onde a proximidade não exige renunciar à individualidade.

No fundo, a segurança relacional não nasce de termos finalmente a certeza de que nunca perderemos o outro. Nasce de sabermos que podemos estar verdadeiramente presentes enquanto nos escolhemos, sem garantias absolutas, mas com clareza, consistência e cuidado –  não será isso amor?

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Autoras:

Ana Fidalgo - Psicóloga e terapeuta EMDR
Dr.ª Ana Fidalgo
Psicóloga
N.º da Cédula: 20735

A Dra. Ana Fidalgo é psicóloga clínica e co-fundadora da Clínica de Psicologia O Teu Lugar. É também terapeuta EMDR, formadora e especialista em Sexologia, Terapia de Casal e Educação Afetivo-Sexual.

Atua em áreas como: Ansiedade, perda e crises existenciais (depressão, luto, vazio/falta de sentido), trauma, perturbações de personalidade,  sexualidade e intimidade, relações, família e decisões de vida, entre outras.

Liliana Marques - Psicóloga
Dr.ª Liliana Marques
Psicóloga
N.º da Cédula: 22932

A Dra. Liliana Marques é psicóloga clínica e co-fundadora da Clínica de Psicologia O Teu Lugar. É também formadora e terapeuta EMDR.

Atua em áreas como: perturbações de humor (ansiedade, depressão), regulação emocional, perturbações da personalidade, trauma, luto e perda, relacionamento interpessoal, stress e burnout, desenvolvimento pessoal.

Referências Bibliográficas

Benson, L. A., Sevier, M., & Christensen, A. (2013). The impact of behavioral couple therapy on attachment in distressed couples. Journal of Marital and Family Therapy, 39(4), 407–420. DOI: 10.1111/jmft.12020.

Evraire, L. E., Dozois, D. J. A., & Wilde, J. L. (2022). The contribution of attachment styles and reassurance seeking to trust in romantic couples. Europe’s Journal of Psychology, 18(1), 19–39. https://doi.org/10.5964/ejop.3059Haydon, K. C., 

Rodriguez, L. M., Coy, A., & Hadden, B. W. (2021). The attachment dynamic: Dyadic patterns of anxiety and avoidance in relationship functioning. Journal of Social and Personal Relationships, 38(3), 971–994. DOI: 10.1177/0265407520975858.

Sharpsteen, D. J., & Kirkpatrick, L. A. (1997). Romantic jealousy and adult romantic attachment. Journal of Personality and Social Psychology, 72(3), 627–640. https://doi.org/10.1037/0022-3514.72.3.627

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