Quem não gosta de ser gostado?
Uma reflexão sobre a necessidade de aprovação e sobre o que significa, na prática, deixar de depender da validação dos outros
Todos conhecem aquele conselho que se repete tanto que já quase ninguém o questiona: “não te importes com o que os outros pensam.” Está nos livros de autoajuda, em legendas motivacionais e na boca de quem só quer ajudar-nos a sofrer menos… E, no entanto, é um dos conselhos mais difíceis de seguir que existem, porque pede ao ser humano que deixe de ser, precisamente, humano.
Não existe, em nenhuma cultura nem em nenhuma época, uma pessoa saudável que seja completamente indiferente à opinião dos outros. Precisar de aprovação tem menos a ver com fraqueza de carácter do que com um dos mecanismos mais antigos que trazemos.
E como é que uma necessidade tão antiga e tão razoável se transforma, nalgumas pessoas, numa dependência que lhes rouba vida? E o que significa, na prática, ter uma relação saudável com o facto de precisarmos tanto de ser gostados?
Uma fome que não escolhemos
Antes de sermos capazes de andar, já sabíamos ler uma cara zangada. O bebé humano nasce absolutamente dependente do adulto que cuida dele, não só para comer e dormir, mas para regular o que sente. Um bebé que perde a ligação com quem cuida dele sente isso como perigo de vida, porque durante a maior parte da nossa história como espécie, foi sempre exatamente isso: a nossa existência depende dessa ligação. Mais à frente, ser excluído do grupo, da família, da tribo, da aldeia, era muito mais do que apenas um desconforto social – com frequência, era uma sentença de morte.
Esta herança não desapareceu só porque hoje já não dependemos literalmente da aprovação alheia para sobreviver. O sistema nervoso que gerimos hoje é, em grande parte, o mesmo que os nossos antepassados geriram há dezenas de milhares de anos, e continua a tratar a desaprovação e a rejeição com uma urgência semelhante à do perigo físico. Não é coincidência que uma crítica no trabalho, ou um silêncio seco de um familiar, provoque uma reação no corpo – o coração acelera, o estômago aperta – muito parecida com a que sentiríamos perante uma ameaça real.
A isto junta-se a história pessoal de cada um, que raramente ensina só uma lição sobre este tema. A maioria de nós cresceu a receber aprovação de forma condicional, mesmo em famílias amorosas: elogiados quando trazíamos boas notas, tranquilizados quando não incomodávamos, sentidos como “bons” quando correspondíamos ao que se esperava de nós. Ao contrário do que se possa pensar, não é preciso ter havido negligência ou maus-tratos para se aprender, cedo, que o amor tem condições. Basta ter havido, algumas vezes, um silêncio mais frio depois de se desiludir alguém importante. As ausências também contam.
Nem todos mostramos esta fome da mesma maneira. Há quem a viva a agradar ativamente, a dizer sempre que sim, a adiantar-se ao que o outro quer antes de ser pedido. E há quem a viva ao contrário, evitando expor-se o suficiente para alguma vez ser avaliado: a ideia que nunca se partilha, o projeto que nunca se termina, a pergunta que nunca se faz em voz alta por medo da resposta. Este segundo grupo tem tanta fome de aprovação como o primeiro; disfarça-a apenas evitando, à partida, qualquer situação em que ela possa ser posta à prova.
Precisar de aprovação, portanto, não nasce de uma fraqueza pessoal. Nasce de sermos mamíferos sociais com uma história de infância em que a aprovação, mesmo quando abundante, raramente foi incondicional o tempo todo. E como apagamos algo tão forte como uma herança? Não se apaga, mas o que fazemos com ela a partir de agora pode mudar drasticamente a forma como vivemos.
Quando a necessidade se torna dependência
Há uma diferença importante entre gostar de ser aprovado e precisar de o ser para “funcionar”, e é aqui que a maior parte dos conselhos simplistas falha, porque trata as duas coisas como se fossem a mesma.
Querer feedback, gostar de ser reconhecido, sentir-se bem quando alguém de quem gostamos aprova uma escolha nossa é saudável, é humano, e recusá-lo por completo seria mais sinal de um escudo protetor do que de força. Sentir prazer com a aprovação não é o problema; o problema começa quando essa aprovação deixa de ser um prazer e passa a ser uma condição. Quando só nos sentimos capazes de tomar uma decisão depois de a validarmos com terceiros, quando reescrevemos uma mensagem cinco vezes para garantir que ninguém a interpreta mal, quando dizemos que sim a um pedido que não queríamos aceitar só porque dizer que não parecia, antecipadamente, insuportável.
A diferença está, em grande parte, em onde mora o critério. Numa relação saudável com a aprovação, o critério principal continua dentro de nós – pedimos opiniões porque nos interessam, não porque não confiamos em nada do que pensamos sozinhos. Na dependência, o critério muda de sítio: passa a estar sempre no outro, e ficamos a policiar constantemente a nossa própria expressão, à procura de sinais de que fomos bem recebidos.
Na linguagem clínica, damos o nome de “diferenciação” à capacidade de manter um sentido de identidade próprio ao mesmo tempo que continuamos ligados emocionalmente aos outros, sem precisarmos, nem de nos fundirmos com a opinião deles, nem de cortarmos a ligação para nos protegermos dela. Quem tem pouca diferenciação vive numa espécie de vaivém: ou absorve por completo a opinião alheia, mesmo quando essa opinião nem foi bem expressa, apenas pressentida, ou afasta-se de tudo e de todos para não voltar a sentir aquele peso. Nenhum dos dois polos é liberdade. A liberdade real está algures no meio: perto o suficiente para nos importarmos, sólidos o suficiente para não nos dissolvermos.
Do lado do psicólogo/a, isto não se processa de maneira diferente. Mesmo depois de anos de estudo, psicoterapia e supervisão, ainda sinto o peso de quando um paciente sai de uma sessão em silêncio, sem eu saber se aquilo lhe fez sentido. A diferença, hoje, não passa por já não sentir esse peso, mas sim por não deixar que ele decida o que faço a seguir.

O que a aprovação nos custa
Quando a aprovação deixa de ser um gosto e passa a ser uma condição, o preço paga-se todos os dias, de formas que muitas vezes nem reconhecemos como relacionadas com isto.
Paga-se em decisões adiadas: a mudança de carreira que não se assume, a relação que não se termina, a opinião que não se diz em voz alta, tudo à espera de uma aprovação que talvez nunca chegue exatamente como precisaríamos. Vejo isto com frequência em contexto profissional – pessoas competentes que não conseguem tomar uma decisão sem primeiro sondar a opinião de várias pessoas, não porque precisem realmente da informação, mas porque precisam da tranquilidade de saber, antecipadamente, que ninguém vai discordar depois. A decisão deixa de ser sobre o melhor caminho a seguir, e passa a ser sobre garantir que ninguém há de desaprovar. A minha amiga Liliana Marques aprofunda bem as nuances deste tema no artigo Quem muda… A si mesmo ajuda? | Clínica de Psicologia O Teu Lugar.
Paga-se também em cansaço. Manter uma versão de nós aceitável para toda a gente é um trabalho a tempo inteiro, e é um trabalho que nunca tem fim, porque as pessoas mudam de expectativas, e nós vamos atrás, num exercício exaustivo. Paga-se, sobretudo, numa certa distância de nós próprios, porque quando a bússola interna é substituída pela opinião alheia durante tempo suficiente, deixa de ser fácil responder, mesmo internamente, à pergunta “o que é que eu realmente quero aqui?”
Custa, também, na forma como amamos. Uma pessoa que depende da aprovação do parceiro para se sentir segura tende a evitar os conflitos que uma relação saudável precisa de atravessar: “engole” a irritação, adia o desabafo, concorda com decisões que não gostaria de tomar, até que o ressentimento acumulado se torna maior do que o desconforto que se estava a tentar evitar. Paradoxalmente, quem mais precisa de agradar acaba, muitas vezes, por se tornar menos presente na relação, porque uma parte de si está sempre ausente, ocupada a gerir a imagem que o outro tem dela.
E as redes sociais não inventaram esta necessidade, mas encontraram uma forma extraordinariamente eficaz de a explorar. Um “gosto”, um comentário, um número de visualizações: tudo isto transformou a aprovação numa coisa quantificável, disponível a qualquer hora, e por isso mesmo mais viciante do que alguma vez foi antes na história humana. Quando a validação passa a chegar em pequenas doses imediatas, várias vezes ao dia, o sistema que evoluiu para procurar aprovação ocasional de um grupo pequeno e estável, fica exposto a um estímulo para o qual nunca foi desenhado e, como qualquer sistema sobrecarregado, começa a exigir cada vez mais estímulo para produzir o mesmo alívio.
Agenda uma Consulta de Psicologia
Em Coimbra ou Online
Não é preciso (nem é possível) “deixar de ligar”
E é aqui que a pergunta “como deixo de ligar à opinião dos outros” merece ser questionada antes de ser respondida. Porque a resposta honesta é que provavelmente não vais deixar de te importar, nem devias querer. O objetivo nunca pode passar por deixares de te importar – é impossível. Mas é possível deixares de precisar da aprovação para te sentires inteiro/a.
Há uma diferença entre feedback e veredicto, e aprender a distingui-los é talvez o trabalho mais útil que existe nesta área. Feedback é informação: alguém partilha uma perspetiva que podes considerar, pesar, aceitar em parte, recusar na mesma medida. Veredicto é outra coisa: é quando aquela opinião se transforma, na tua cabeça, numa sentença sobre o teu valor total como pessoa. A mesma frase, “não gostei muito disto que fizeste”, pode ser recebida como feedback por alguém com uma relação mais sólida consigo próprio, e como veredicto devastador por alguém que ainda depende dela para se sentir válido. A frase não muda; o que muda é onde guardas o teu valor.
Construir essa solidez não acontece por decisão, não se resolve dizendo a ti próprio “a partir de hoje não ligo”. Constrói-se, devagar, pela prática repetida de tolerar o desconforto de desagradar sem que isso te destrua. É desconfortável dizer que não a um convite e sentir o silêncio momentâneo do outro lado. É desconfortável mostrar um trabalho que ainda não está perfeito. É desconfortável discordar de alguém que admiras. Cada uma destas pequenas experiências, sobrevivida sem catástrofe, ensina ao sistema nervoso algo que nenhuma frase motivacional ensina sozinha: que a desaprovação, por mais desconfortável que seja, não é, afinal, perigo de vida.
Também ajuda perceber que nem toda a opinião merece o mesmo peso. Uma vida com uma bússola interna sólida não é uma vida sem nenhuma opinião externa relevante, mas sim uma vida em que escolhes, com mais cuidado, de quem a queres. Há pessoas cuja opinião continua, e deve continuar, a importar: um parceiro, um amigo próximo, alguém cujo julgamento respeitas genuinamente. O problema nunca será dares valor à opinião de alguém, mas dar-lhe o mesmo valor que dás à opinião de toda a gente, incluindo quem mal te conhece, ou quem nunca teve os teus interesses em conta.
Há ainda uma terceira bússola, além da opinião alheia e do impulso do momento: os valores que escolhemos para nós próprios, mesmo antes de sabermos como os outros vão reagir a eles. Alguém que decide dizer a verdade a um amigo, sabendo que isso pode desagradar, não está a ignorar a opinião do amigo: está a dar mais peso a ser íntegro do que a ser aprovado naquele momento específico. É essa hierarquia, entre o que se valoriza e o que se teme perder, que decide, no fim, o que manda na vida de cada um em determinado momento.
Aquilo que a terapia pode oferecer
Não existe exercício nem lista de passos que substitua o tempo que este trabalho pede, e seria, mais uma vez, prometer uma fórmula rápida para algo que só se constrói devagar. Mas há um lugar criado, precisamente, para este tipo de treino: uma relação em que se pode praticar discordar, desagradar, mostrar-se imperfeito, e continuar a ser recebido sem julgamento, sessão após sessão, até que o corpo comece a acreditar naquilo que a cabeça já suspeitava.
Não é por acaso que tantas pessoas descrevem a terapia como o primeiro sítio onde sentiram que podiam ser sinceras sem calcular, antes, o custo dessa sinceridade. Talvez seja essa, no fundo, a definição mais simples do que aqui se oferece: um espaço onde a tua aprovação de ti próprio pode começar a pesar tanto, ou mais, do que a de qualquer outra pessoa…incluindo, já agora, a de quem está sentado à tua frente.
Autora:

A Dra. Ana Fidalgo é psicóloga clínica e co-fundadora da Clínica de Psicologia O Teu Lugar. É também terapeuta EMDR, formadora e especialista em Sexologia, Terapia de Casal e Educação Afetivo-Sexual.
Atua em áreas como: Ansiedade, perda e crises existenciais (depressão, luto, vazio/falta de sentido), trauma, perturbações de personalidade, sexualidade e intimidade, relações, família e decisões de vida, entre outras.


